terça-feira, 4 de agosto de 2009
Chove do lado de fora, mas parece que chove do lado de dentro também.
Sem eletricidade devido aos raios, a televisão e a internet falham na iniciativa de compor o vazio do ser.
Mário está acordado, não tem amigos, não tem amor, não tem vida e apesar de viver sente-se morto. Mário sente os dias passarem rumo ao final de algo do qual ele faz parte, mas não se encaixa, sente que estar acordado não é tudo, pois mesmo assim o tempo continua a passar. Paradoxalmente querer e não querer o impedem de ser alguma coisa específica. Por isto imagina que a real existência é algo antagônico ao ser humano, enquanto a dispersante vida que passa lentamente todos os dias e de repente acaba é inerente ao mesmo. Esta concepção demonstra o profundo desespero pela sensação do devir constatado pela consciência. O devir do humano é acabar, pelo menos aparentemente, sem conhecimento do amanhã ou do que há por trás deste final. O quê fazer?
Neste momento uma suave sensação de frio começa a tomar conta de seu corpo, sua empolgação vai ficando ponderativa pelas possibilidades de se chorar ou rir por saber. O saber, o ato de se ter consciência é tido como uma maldição, dizem que os ignorantes são mais felizes... e a cada segundo a sensação de frio fica mais evidente até que toma conta de todo o corpo de Mário ao mesmo tempo que o paradoxo toma conta de sua mente.
Enfim Mário conclui que tudo é demasiado belo e maravilhoso vendo a chuva cair e se espatifar no asfalto rude que é tão belo em si, mas tão devastador numa visão ampla e menos antropocêntrica. Esta visão o entristece por perceber a efemeridade de tudo aquilo que o rodeia e dele próprio. De um segundo para o outro a felicidade se tornou maldição, o belo tornou-se um crime e a vida um passe de mágica incompreensível que sabemos que ninguém vai saber explicar, mesmo havendo uma explicação.
Por alguns segundos Mário se dispersa, entrete-se pensando em romances com toda a pouposidade da palavra e tornando-se refém dela. Sonhando acordado em uma vida que acaba de conhecer ao acordar, tudo aquilo que o compunha até alguns instantes não lhe faz mais parte. Uma enxurrada de pensamentos o faz mergulhar, depois diz em voz alta esbaforido - Fora eu quem criou isto. Esta realidade macia é uma invenção minha para esconder tudo aquilo que me machuca. - Afastando de vez o pensamento romântico de sua mente.
A vida de Mário é posta à prova por ele próprio. A dúvida sobre o que é real e o que é mentira adaptada para parecer realidade o fez sair de uma vida fictícia que no conceito mais apaziguo pode ser chamada de mentira. O sentimento de impotência e alienação o fere no fundo de seu ego, antes imponente e agora destruído, e ele prefere deixá-lo de fora disto vendo que um dos grandes culpados disto era o próprio.
Ele mira o horizonte chuvoso pela janela de vidro, pensa na bela loira de olhos verdes que conhecera e no que o mundo mantém como valores ou conceitos de vida, dignidade, bem e mal. Sentindo um tremor nas mãos Mário duvida da não alienação de alguém. Então o sentimento de solidão o assola. Agora duvida que haja algum sentido real em sua vida.
A pergunta que um homem sem medo e sem pudor faz sozinho para si mesmo em um dia chuvoso é; “O quê fazer?”
O amor que acreditou sentir certa vez não existe, a liberdade que pensou ter ele não encontra e a vida que pensou viver propositalmente tornou-se mero acaso. Seus sonhos desmoronaram com a chuva que cai.
À primeira vista resta-lhe sonhar, sonhar com aquilo tudo que pode ajudá-lo a chegar mais perto de algo real. Ele sabe que sentir algo por outras pessoas em busca da recíproca é interesse e uma inversão do conceito de parceria proposto no amor dos humanos, então, finalmente, desapega-se da necessidade de amar. Agora, assim como com o ato de amar, o ato de viver tornou-se o ato de agir, que é contrário de viver por viver.
Já é noite, Mário percebe que uma simples, gélida e chuvosa tarde mudou/justificou sua vida. Desde então ele não sai da janela, desde então ele vive.
J.C.


















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