Os estereótipos da mulher

quarta-feira, 8 de abril de 2009


Depois de uma partida de xadrez, o trabalho:


Entrevista concedida a Raquel Piegas para o curso de jornalismo da Universidade do Vale do Rio dos Sinos.

Tema:

Os estereótipos da mulher


Raquel – Na tua opinião, a imagem da mulher na mídia é vulgarizada?

Jefferson - Não. Sinceramente, acho que a mulher, em seu âmbito geral, não é vulgarizada pela mídia. Em minha opinião, o que é vulgarizado pela mídia é o valor da mulher, não a mulher propriamente dita. Para a mídia a mulher é uma forma de atração instintiva, uma forma de chamar atenção de todas as pessoas que sentem atração por mulheres que mostram seu corpo e o colocam como um objeto, atraindo-os para o programa, mensagem ou informação apresentada. Isto, por sua vez, é uma conseqüência da forma moral da sociedade agir. Um exemplo simples para isto pode ser adquirido ao tentarmos entender qual a importância sexual de se ver uma mulher sem roupas: Só há apreciadores de mulheres nuas por que a sociedade está presa a uma moral que tem como objetivo manter limites e uma espécie de ordem suposta, cujo conceito normalmente não é definido pelos componentes da mesma. Este sistema impõe que os humanos devam se vestir, pois mostrar os órgãos sexuais é um erro, diferente em cada cultura que adota a prática, mas sempre um erro. Sabemos que os humanos são animais, então estar nu é essencialmente normal. Utilizar-se disto como forma de atração de público à mensagem divulgada acaba, em primeiro lugar, vulgarizando e diminuindo o valor da mulher enquanto ser igualmente humano e, em segundo lugar, vulgarizando também a mensagem.

Os estereótipos evidentes, porém eufemizados, como: objeto, consumista, submissa, impotente e inferior... não são vulgarizações da mídia, mas da sociedade, e esta interpretação acaba sendo transmitida pela mídia. O maior exemplo disto é que as mulheres são criadas brincando com bonecas para que construam o hábito de cuidar dos filhos, para que tenham vontade de ter filhos e viverem suas vidas de meras reprodutoras que saciam a fome (tanto sexual como de alimentos) de seus maridos. Mas isto demonstra o início e o fim do processo, não podemos esquecer do fato de as mulheres serem condicionadas a ter como objetivo máximo de suas existências o casamento, demonstrando que a vida delas, para a sociedade, é um mero complemento da vida dos homens.

Ambos têm culpa. A sociedade toda tem culpa.

Raquel – Que programas tu achas que contribuem mais para a formação dessa imagem?

Jefferson - Mesmo achando que não é a mídia quem vulgariza a mulher e que esta, quando vulgariza, não vulgariza a mulher, mas o seu valor, entendo que os programas responsáveis são aqueles em que as mulheres utilizam de seus corpos para conseguir o valor que procuram. Este valor normalmente é definido pela fama ou pelo conceito de beleza. Ambos os conceitos que definem o valor, como se pode perceber, são baseados na opinião alheia, no conceito da sociedade ou daqueles que a manipulam. Isto coloca o valor destas mulheres no conceito de outras pessoas. Ou seja: estas pessoas não vivem suas vidas para si e por si, mas, ao contrario, vivem as vidas dos outros, pois dependem dos conceitos destes para serem felizes. Portanto a responsabilidade disto fica com os programas que influenciam a transferência do valor próprio para o valor que os outros dão. Estes são, basicamente, programas de moda, humor barato e de fofocas, mas também passam por programas de receitas, filmes novelas e etc. Além de todo programa que estereotipize as mulheres dentro do contexto de frágeis e dependentes.


Raquel – A "culpa" dessa estereotipização não seria também das mulheres que estão em evidência na mídia e a construção que elas fazem de si?

Jefferson - A culpa desta vulgarização é, óbviamente, das circunstâncias e de todos aqueles que perpetuam o sistema onde elas ocorrem. Em todo o momento a culpa foi das mulheres e dos homens, pois ambos praticaram a interiorização e submissão da mulher em relação ao homem e a estereotipização da mulher como consumista e fútil ser dependente, além de objeto de consumo, claro.

Uma mulher que influencia a criação do seu próprio estereótipo, apenas o faz por achar isto algo bom, ou por não perceber o que estes conceitos realmente representam em um contexto que sobrepõe à sua conta no banco e a fama alcançada.

Como já afirmei, creio que ambos sejam culpados, um por repressão e outro por aceitação. Em muitas oportunidades a aceitação foi através de violência, em outras por falta de consciência de quem se submetia e daquele que impunha a submissão.

Se a sociedade entende que as mulheres são meras máquinas que fabricam o consumo, fabricam outros humanos e proporcionam prazer, a culpa é de quem aceita e de quem fomenta este conceito.


Raquel – A extinção desses programas contribuiria para a melhoria da imagem da mulher ou eles apenas refletem uma sociedade com valores machistas?

Jefferson - Sem dúvidas estes programas são um reflexo de uma sociedade unilateral, machista e pré-conceituosa, por isto eles existem. Creio que a extinção deles através de repressão não solucionaria o problema, pois não seria uma atitude que as pessoas tomariam de forma sincera. O problema persistiria, porém fora da mídia, mas livre em toda a sociedade anônima. Talvez a melhor atitude feminina fosse adquirir consciência, assim como toda a sociedade deveria fazer. A consciência é a única forma que os humanos têm de compreender a si e às circunstâncias em que vivem. Esta não deve ser uma atitude apenas feminina, é uma atitude da humanidade. Os humanos não são tão racionais? Como então eles podem sobrepor uns aos outros de forma tão ignorante em prol de um prazer fictício?

Por que as mulheres não podem ser um símbolo da inteligência, como em nossa foto? Esta foto demonstra que nem todas as mulheres são objetos, mostra que elas também podem desenvolver o intelecto e serem reconhecidas por isto, não mais por suas nádegas ou seios, não mais pelo que elas representam ou aparentam, mas sim pelo que são.


J.C.

1 comentários:

Rubra disse...

"Pq nem toda a feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é bunda..."
Valorizar as mulheres não pelo corpo que tem, não por serem sensíveis/frágeis, por nada que se possa concluir antes de uma boa conversa. Valorizar as mulheres não por apenas serem mulheres, mas pelo que há dentro delas.
Bela entrevista, Jefferson!

"A opinião dos demais em relação a mim não é pior que a minha opinião em relação aos demais."

.Contato:

.pilardojefferson@gmail.com
 
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