A Consciência Consciente

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A vida humana esbarra em um paradoxo logo nos princípios básicos utilizados para sustentar e perpetuar esta mesma existência dentro de um sistema social que se tornou manipulador daqueles que o criaram, isto devido à efemeridade da vida daqueles inconseqüentes que instintivamente levaram a humanidade a viver em sociedade, e assim, tornaram-na submissa a sua própria criação.


A racionalidade, segundo Sigmund Freud, precursor da psicanálise, é a mais insignificante de todas as três instâncias psíquicas da vida humana, isto por que ela fica presa entre o ID (impulso sexual, instinto) e o Superego (a repressão moral, necessidade de atingir o eu - perfeito), ademais, é dela a responsabilidade de fazer a distribuição mais aceitável das ações psíquicas, saciando o ID sem infringir completamente o superego e vive-versa.

Com uma racionalidade ocupada com necessidades psíquicas, sobra menos capacidade mental ao ser humano para tratar da existência, que é quem proporciona a própria capacidade psíquica, tornando o ser, além de efêmero, inconsciente de sua própria existência, isto é, inútil em relação a si e sua existência. Isto pode ser observado com maior facilidade em outros animais, como os cães, por exemplo, que existem em um plano circunstancial não escolhido por eles, onde os mesmos simplesmente vivem, e o fazem como única necessidade relevante, sem questionar os motivos de fazê-lo, já que não podem devido à sua incapacidade. Os cães passam anos existindo apenas para responderem a vontades externas ao “ser cão”, já que todas as suas atitudes são momentâneas e tem como objetivo saciar vontades e necessidades igualmente momentâneas que o mesmo não tem consciência de ter, além de ser induzido pelas circunstâncias a ter tais atitudes. De modo parecido funciona a mente humana, pois estes seres existem e (um passo além do cão) até questionam os motivos disso, mas por incapacidade psíquica acabam por responder suas perguntas de maneira mitológica, culminando na alienação. A submissão da humanidade à sua própria criação se revela em várias áreas da vida destes seres. Entre elas estão, por exemplo, a sociedade, a religião e o material, como afirma Marx. Contudo, há algo mais ao qual os seres humanos tornaram-se submissos: sua própria alienação. Isto ocorre por que ela aceita a falta de compreensão da práxis, por exemplo, como algo natural, pois esta compreensão seria inalcançável devido à limitação dos sensores espaciais que dão uma percepção distorcida do mundo, fazendo estes seres crerem em sua incapacidade e tornam-na irrefutável, subjugando-se ainda piores, inferiores ou menos capazes do que realmente são. Esta situação é inevitável a partir do momento que o ser e seu grupo de convivência torna-se alienado, pois a própria alienação ocorre pela falta de respostas e pela constatação de que chegar a estas resposta é extremamente complexo e trabalhoso, ou até mesmo impossível.

Toda esta situação apresenta-se de maneira paradoxal na mente daqueles que conseguem ao menos transpor algumas barreiras da alienação e compreender a ocorrência desta situação. Estes seres normalmente são filósofos que buscam as respostas ativando a racionalidade que estava presa ao Superego e ao ID (ego), criando padrões ativos de formas de agir, buscando libertar-se desta alienação e chegar à plenitude do saber. Porém, aí se encontra o paradoxo humano-filosófico do qual nenhum filósofo escapa, baseado no problema a seguir:

· Como chegar às respostas sobre o ser?

René Descartes, por exemplo, quis responder tudo com a razão, que, mesmo limitada, oferecia uma infinidade de possibilidades cabíveis, pois estas possibilidades vinham da razão, aquilo que há de mais sublime no ser humano. Platão, por sua vez, negou tudo que era existente no plano físico por achar que seus sentidos eram falhos e insuficientes para compreender o cosmos de maneira eficaz, sendo, então, impossível chegar às respostas sobre o ser baseando-se nos sentidos, transferindo toda a capacidade de compreensão humana do ser e do cosmos para a razão.

Platão tinha razão quanto à limitação dos sentidos, mas este seu desprezo pelo material e sua dedicação plena à metafísica também o limitou. A razão também é falha, isto por que a razão humana é desenvolvida a partir do nascimento do ser, sendo lapidada e moldada de forma paulatina durante toda sua existência e, ironicamente, através dos sentidos, portanto, a consciência não é inata, pois pode, ou não, ser incentivado o seu desenvolvimento e, conseqüentemente, ela pode, ou não, se manifestar, basta ter acesso às informações que, obviamente, são assimiladas pelos sentidos. Ou seja, o ser humano está condenado a ter sua concepção sobre tudo proveniente de seus sentidos. Por mais sublime que seja a mensagem, uma mensagem divina, por exemplo, esta deveria ser assimilada por algo capaz de fazê-lo e deve estar ligado ao corpo e a mente do ser, sendo, então, um sentido. A consciência enquanto capacidade de concepção do cosmos está diretamente ligada aos sentidos, pois são eles que passarão as informações à razão. Por conseguinte, se os sentidos são falhos, é, necessariamente, toda e qualquer concepção extraída ou derivada deles, falha. Partindo deste principio, compreende-se que o ser é incapaz de desenvolver a razão, indo de encontro com todo o pensamento platônico, por exemplo. Isto não significa que o ser humano não pode chegar à resposta alguma sobre nada, significa, sim, que o ser humano pode chegar a determinadas respostas baseadas nas capacidades cognitivas do mesmo e que são uma conseqüência da soma de experiências vividas somadas, o que constitui o intelecto (forma de razão) e a própria razão.

Mesmo atingindo a sua plenitude, o ser humano não estará, talvez, nem perto das respostas, impondo de maneira incisiva o paradoxo latente.

· O que fazer quando se descobre ser incapaz de compreender tudo?

A questão remete ao pensamento de que, por mais longe que se vá, ainda se estará longe de qualquer resposta. Isto por que o ser humano não tem sentidos apurados o suficiente para ter uma concepção real do todo e, mesmo que tivesse a capacidade de adquirir esta concepção real do todo, o ser ainda seria tendencioso àquilo que é auto-engano, isto como conseqüência eminente, devido à pluralidade de perspectivas que se pode utilizar para compreender cada situação.

O ser humano filósofo que busca respostas para suas dúvidas, esbarra, ironicamente, em mais dúvidas e muito menos respostas. Ocorre que a não-alienação, ou distanciamento da alienação causada pela submissão humana à sua própria incapacidade psíquica que os faz limitados em relação ao cosmos e conseqüentemente incapazes de compreendê-lo, transformando todas as respostas adquiridas através dos mitos em eufemismos que acobertam a dúvida, deixando-as de lado, como se não existissem, acaba por abrir inúmeras possibilidades para cada pergunta do ser, deixando o mesmo com sentimentos dúbios de que pode, sim, chegar às respostas, como não conseguirá responder nenhuma questão por completo, tornando seu trabalho inútil.

A falta de capacidade do ego de distribuir coerentemente as ações do ID e do Superego, segundo Freud, leva aos distúrbios psíquicos (neuroses e psicoses), pois há um desequilíbrio entre eles. É justamente este o objetivo do filósofo, tornar-se menos instintivo e mais racional, e assim tornar-se capaz de justificar sua existência. Mas a pergunta persiste: se viver por viver é inútil e tentar responder as perguntas relacionadas aos motivos de fazê-lo com o objetivo de se descobrir uma forma de não se viver por viver não é provável, levando-se em conta a limitação humana que o incapacita de fazê-lo, o problema torna-se maior que tudo, menor apenas que a própria existência.


Levando em conta as circunstancias psíquicas, mentais e sensoriais, pode-se compreender o quão paradoxal é a vida humana, seja no âmbito inconsciente (vida vivida por ser vivida) seja no âmbito filosófico (vida em busca de uma justificativa para a mesma).

J.C.


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