terça-feira, 25 de novembro de 2008
Entrevista concedida a Luan Iglesias para o curso de jornalismo da Universidade do Vale do Rio dos Sinos.
Tema: Hedonismo.
Luan Iglesias – Como e onde surgiu essa identificação com tal filosofia de vida?
Jefferson Cristian - Eu concebi tal filosofia de vida quando compreendi que toda situação vivida pela humanidade que requeresse um empenho e/ou uma devoção muito grande acabava estressando a pessoa em questão, fazendo com que ela procedesse de maneira mecânica e não espontânea. Com isto, utilizei o hedonismo para, em primeiro lugar, proporcionar menor pressão enquanto pensador e desenvolvedor de críticas, perguntas e respostas, em segundo, o fato de que uma boa vida, sem, ou quase sem problemas fúteis, proporciona maior vigor e capacidade de raciocínio. Isto abrange também atividades físicas e tudo mais que possa proporcionar bem-estar físico, refletindo imediatamente no mental. Aprendi a palavra hedonismo há pouco tempo, antes eu apenas chamava tal filosofia de vida de "foda-se o mundo", portanto é algo que se perpetua em minha vida há um tempo considerável e que hoje em dia ganhou uma importância ainda maior, pois consigo fundamentar o pensamento através da prática hedônica, pois o tempo o deixou mais desenvolvido e melhor compreendido do que antes. É conseqüência de um processo.
Onde ocorreu é difícil lembrar.
Luan Iglesias – A busca pelo prazer individual sempre perpetuou na tua vida? Como ocorreu esse processo?
Jefferson Cristian - Não. O conceito de prazer nunca existiu em minha vida até eu compreender o valor dele. O que houve foi o seguinte: ao mudar minhas concepções, muita coisa se tornou nova para mim, uma enxurrada de coisas que eu jamais fizera idéia da existência, ou não havia percebido, veio ao meu encontro; tudo passou a integrar meu mundo de repente, passando a fazer parte de minhas atividades gradualmente, pois tive que organizar minha vida novamente ou, posso dizer, que pela primeira vez de forma racional. O fato é que não é fácil distinguir prazer físico dos prazeres hedônicos, por isso, por muito tempo era dificílimo aceitar que o prazer é a base essencial, pois na visão essencialmente humana, prazer está indubitavelmente ligado ao sexo, isto atrapalhava, pois minha opinião sempre foi a de que o sexo, a atividade sexual e a mentalidade sexualizada eram um estado primitivo da humanidade, ou seja, descartável caso queiramos evoluir. Portanto, não poderia fazer parte de uma atividade racional. Com o tempo esclareci e estabeleci as diferenças entre estas formas de prazer, ademais, apensar de ter uma opinião menos drástica quanto à atividade sexual, ainda a vejo como o lado primitivo dos seres humanos e que deve ser contido ao máximo, para que vida não se torne uma conseqüência dos desejos e ocorra justamente o contrário.
Luan Iglesias – Seu posicionamento a respeito da existência colaborou para a identificação com o hedonismo?
Jefferson Cristian - Sim. O existencialismo é uma frente de pensamento que propicia a insatisfação, pois nos frustramos a todo o momento ao compreender os motivos das nossas atividades e etc. O hedonismo no existencialismo ajuda a sobreviver na humanidade sem se deixar levar por ela, além da própria compreensão existencial, que faz o mesmo, mas este o faz pelos princípios, enquanto o hedonismo pelos métodos. Na verdade, o hedonismo no existencialismo não é nada mais do que método, ou seja, uma forma de se chegar às compreensões pretendidas de uma maneira tranqüila e apaziguante, o quê às vezes se confundi com eufemismo, e até pode ser se o método não for praticado da forma mais racional possível. Digamos que seja uma maneira de representar que nada realmente importa, então, o que quer que façamos deve ser feito da forma mais gostosa, por que em um mundo de falta de respostas e pouco bem-estar o que vier é lucro, se vier os dois juntos, melhor.
Luan Iglesias – Houve alguma mudança com a prática do hedonismo na tua rotina?
Jefferson Cristian - Houve. As mudanças se tornam mais evidentes em situações relacionadas às finanças, discussões e em outras situações fúteis. O que mudou foi que meu estresse causado por estas situações reduziu muito, melhorando minha vida. Em quase tudo houve acréscimo de bem-estar, como em passear, ouvir música e até apaixonar-se. A compreensão do valor do prazer proporciona ao adepto do hedonismo uma vida mais viva, mais rica em experiências, menos limitada e até mesmo mais instigante, pois as respostas não são mais uma obrigação, são uma oportunidade, existencialmente falando. O único cuidado mais abrangente a ser tomado é quanto ao fato do motivo pelo qual o hedonismo está sendo empregado. No meu caso, ele é um método, uma base para chegar às respostas existenciais. Penso que o hedonismo existencialista é o único que se sustenta, mas, mesmo que seja possível desenvolvê-lo em outras frentes de pensamento, é importante salientar que ele deve ser um caminho para algo, um método, nunca, jamais, o objetivo máximo, pois viver pelo prazer não é possível e, desta forma, o hedonismo também não se sustenta.
Luan Iglesias – Algumas pessoas costumam confundir o hedonismo com consumismo, ou seja, "prazer consumista". Que tipo de valores estamos (mundo) praticando atualmente?
Jefferson Cristian - Hedonismo não é consumismo. Explico: O consumismo é uma forma de prazer, mas, normalmente, esta forma de prazer tem fatores psicológicos impregnados, ou seja, está além da razão, ou ainda melhor, é justamente a falta de razão, o que impossibilita a prática hedônica, pois esta só se sustenta quando feita racionalmente, por isto é tão difícil ser um hedonista de verdade. Em relação aos valores humanos, penso que, na atualidade, eles estejam principalmente baseados em alguns fatores chave. São eles: afeto, necessidades e status. O afeto faz com que as pessoas se relacionem insaciavelmente umas com as outras sem ao menos terem motivos claros e racionais para isto, levando às necessidades. Nesta, as atividades se esclarecem pelas ações irracionais, que também afetam e regem as outras duas situações, mas nesta ela é uma característica irrefutável. As necessidades são as vontades humanas não contidas por eles e que com o tempo se tornam necessidades. Assim chegamos ao status, este é, sem dúvida alguma, uma das atividades humanas mais hipócritas, pois fomentam a mentira que rege suas vidas, desenvolvendo um teatro real que ocorre com o consentimento e a participação de QUASE TODOS. A humanidade, em minha opinião, é um aglomerado de pessoas que vivem em um ambiente criado por elas próprias, regido pela mentira, hipocrisia, irracionalidade, instinto, pudor, negação e, acima de tudo, submissão a todas as anteriores. A humanidade vive para alcançar a riqueza material e para um dia morrer, não levar nada e, principalmente, não compreender nada. Viver por viver, como costumo dizer.
Luan Iglesias – Fale um pouco dos teus anseios, e se possível, detalhes que marcaram tua vida, teu atual posicionamento ideológico, principalmente como hedonista.
Jefferson Cristian - Tenho como base para minha existência as respostas, pretendo entender os por que das coisas funcionarem como funcionam, não procurando especificamente uma origem em comum, mas busco as raízes desta origem, se possível for. Em suma, a vida é uma soma de circunstâncias que ocorrem naturalmente e se pudermos compreender como funcionam estas situações, podemos encontrar aquilo que mais aflige a humanidade e todo e qualquer outro ser capaz de questionar sua os motivos de sua existência. Temos um propósito ou somos uma coincidência? Caso tenhamos um propósito, qual é? Se somos uma coincidência, o que podemos fazer com nossas vidas para torná-las importantes para o universo inteiro? E até mesmo, saber o que há fora dele? Para isso, devemos trabalhar de forma produtiva. Creio que jogar a vida fora em busca de ideais virtuais como riqueza e status é um grande desperdício. Se juntássemos todo conhecimento em potencial contido na mente de todas as pessoas existentes, a humanidade poderia se transformar em algo que não podemos nem mesmo supor, pois não haveria limites para a evolução do raciocínio, já que este seria o objetivo máximo, supremo.
Vejo o trabalho como o método de manutenção da sociedade humana e manutenção da vida dentro desta sociedade, o problema é que esta sociedade não é produtiva, não leva a nada, pois os objetivos são fúteis e irrelevantes. Ser um ser humano é passar anos vivendo algo sem sentido.
Em relação à minha vida, as principais situações vividas foram, sem nenhuma dúvida nenhuma, as situações de compreensão de tudo que descrevi acima. Compreender tais situações estando impregnado neste meio é algo incrível e formidável, uma conquista sem tamanho, devido à dificuldade de fazê-lo. Creio que a minha vida começou novamente a cerca de dois anos, quando passei a PENSAR.
Hoje, sou um racionalista moderado, ou seja, apto a uma mudança drástica, desde que comprovada, além de agnóstico pendente ao ateísmo. Tenho como ponto de vista mais importante atualmente, o fato de possivelmente sermos meros acasos enquanto seres humanos, devido à compreensão do incrível acontecimento que é a vida. Percebo, estudando várias ciências, que as possibilidades de haver um propósito pré-concebido ou uma entidade regente de tudo é algo um tanto quanto improvável, supondo que, se há algo que nos rege, esta coisa é a interação energética, que pode ser difundida de maneiras inimagináveis e, muito possivelmente, incaptáveis pelos limitados sentidos humanos, o que dificulta o trabalho de se chegar a alguma certeza, mas não a anula. Isto é que me leva ao hedonismo; quando se é um racionalista, tende-se a ser um pouco pessimista com algumas possibilidades, como a de que somos seres especiais, o hedonismo serve para proporcionar o incentivo que antes era dado pela suposta divindade humana criada pelos próprios humanos e propagada como verdade universal.


















2 comentários:
Sempre achei o hedonismo uma boa forma de se viver.
Mas acho que ainda tem muita gente que não entende o que ele realmente é.
:D
Eu sei o que é hedonismo na teoria, pq estudei na filosofia para o vestibular. Mas, vc quer saber? Para mim a prática é difícil. Culpa o cristianismo que dominou grande parte da minha vida!
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