Heróis?

quarta-feira, 24 de setembro de 2008


Passadas algumas semanas do final dos Jogos Olímpicos e alguns dias do encerramento dos Jogos Paraolímpicos, ambos realizados em Pequim, é possível analisar e compreender o que ocorre para que este evento exista. Ao fazê-lo, pode-se compreender a grande contradição impregnada na própria concepção dos ideais do evento: a igualdade. Em suma, é evidente que as olimpíadas são uma grande pseudo-utopia, pois nas utopias de um só mundo não há competição para ver quem é o melhor, ou seja, o ideal se contradiz logo em seu lema. Seja na guerra ou no esporte, luta é luta; querer provar a superioridade de uma cultura, povo ou credo em relação a outro constituí o mesmo objetivo, independentemente da intenção retórica, este objetivo é hierarquizar o mundo.

“Mais uma contradição proporciona indignação.”

Uma vida disponibilizada a ser o melhor, para ganhar uns dos outros, para perder, para ficar na história ou chegar o mais próximo possível disso. Quatro anos pulando, saltando, correndo, jogando, driblando, mirando, nadando,treinando, para... ganhar um circulo feito com materiais mais ou menos valiosos, devido a sua escassez, que indicam simbolicamente o resultado alcançado. Vidas desperdiçadas em nome de sonhos e necessidades questionáveis, onde o eufemismo da sociedade mais uma vez impera. Em nome de uma nação, em nome da história, de uma pseudo-importância, de uma irrelevante relevância para suas vidas, os humanos doam seu tempo em nome de um ideal.
No final de mais uma quermesse olímpica fica claro o número de respostas encontradas para os problemas existenciais, o número de soluções para os problemas sociológicos, antropológicos ou filosóficos. Neste momento fica evidente em quê são depositadas as esperanças humanas, o quê procura e o quê pretende a humanidade. Brigar entre si e desenvolver hierarquias nas mais diferentes áreas justificam a entrega de uma vida a um objetivo que transcende o próprio ser, algo pelo seu povo, transformando-o no porta-voz da vitória ou da derrota, da consagração ou do fracasso de todo um país ou de uma nação.
Pensar a existência em comunidade, como unidade, é algo formidável, primoroso, demonstrando que há uma convivência pacífica entre os povos, o que propiciaria, para aqueles que estivessem interessados, uma busca em comum pelas respostas.
A integração entre povos é inegavelmente produtiva, pois acarreta experiências para ambas as partes, transformando o ser humano em um grupo só, uma comunidade só, uma só totalidade. Contudo, fazê-lo torcendo a seu favor e contra seu adversário não constitui ética. Mas, para quê precisar-se-iam de ética quando lutam como animais (que realmente são) em busca de respeito próprio e, acima de tudo, alheio, e pior, em nome de uma união. A contradição do ato exacerba todos os níveis de hipocrisia, incongruência e anarquia ideológica que posso lembrar. Isto feito pelos humanos para eles próprios com o objetivo de estabelecer hierarquias, vai de fronte o conceito de sublime, de transcendental, pois contradiz e nega o objetivo traçado.
A história é apenas a compilação de informações, não se pode fazer parte dela, pode-se, no máximo, ser incluso nela. Mas este é o objetivo de todos que lá estão, ou daqueles que torcem em frente a seus televisores. Sim, estes também, pois o fazem para que sua nação mostre aos outros do quê é capaz. – Algo de grande importância! Suponho que isto deva ser de uma importância tremenda, ainda mais se analisado do seguinte ponto de vista: em primeiro lugar, ninguém escolhe onde pretende nascer, ou seja, o ser está torcendo contra um povo que poderia ter sido o seu, em segundo lugar, a humanidade não é eterna e a história é feita por ela para ela própria, portanto, mesmo que as informações compiladas por elas se propaguem e se perpetuem, isto não durará mais do que alguns milhares ou milhões de anos, no máximo, conseqüentemente, então, a vida do torcedor, do participante ou de qualquer outro que dedicou sua vida àquilo, será apenas uma passagem por algo efêmero. Claro, isso é uma circunstância inevitável a todos, mas há aqueles que, mesmo efêmeros, buscam a eternidade ou saber o que é a eternidade: os filósofos, os eternos insatisfeitos.
Uma pessoa disponibilizar uma vida inteira em nome de alcançar um objetivo que não vai responder nenhuma das perguntas que o ser deveria fazer para se tornar um ser que realmente existe em relação à sua capacidade, ou seja, utilizar sua razão, é negar sua própria existência efetiva, trocá-la por uma vida de futilidades e sem sentido existencial, o que torna a vida algo, além de efêmero, desperdicioso.
Não há tendenciosismo ao dizer isto, pelo contrário, há sim conhecimento de ambas as situações, isto é que disponibiliza a capacidade de conceituar de tal modo cada uma delas.
A sociedade nega os filósofos, os conceitua como des-virtuosos seres que buscam algo que não existe apenas por necessitarem de atenção, mas idolatra aqueles que desperdiçam anos de suas vidas para adquirir aquele objeto circunférico metálico. Aí há, também, uma enorme discrepância que demonstra a validade dos valores humanos. Como se pode ser tão incoerente? Negar o sublime em troca da competição primitiva, onde músculos e força são mais importantes do que as respostas para os porquês de tais coisas serem possíveis. Como já disse Brian May: “Fortaleça o músculos conforme o corpo decai.”¹
A única coisa que os humanos precisam está no seu físico. Seus relacionamentos são baseados no físico, os conceitos são baseados no físico, crianças brigam fisicamente desde que nascem e o fazem para o resto de suas vidas, pois a única maneira humanamente possível de se impor um respeito é através do físico, da força e habilidade do mesmo.
Incrivelmente estas pessoas crêem que estão colocando seus nomes na história e que isto é algo que também supera aos próprios humanos mortais, mas, esquecem-se eles que a história e feita por humanos para os próprios humanos e que um dia os próprios humanos terão um fim, transformando seu invejável feito em mais uma mera efemeridade humana sem nexo ou motivo.
A transcedentalisação do inútil é aceitável, mas nunca inferiorizando o sublime, a busca pelas respostas, pois todos têm suas atitudes fúteis, mas, mesmo que sejam suas principais atitudes, deve-se ter consciência do ato e respeitar aqueles que, ao contrário dele, tentam justificar sua existência.
Os heróis são estes, os hipócritas e ignorantes padrão, que disponibilizam suas vidas a serem melhores uns em relação aos outros apenas para o fazerem e para o ser. O fazem por fazer, vivem por viver, pois o tempo disponibilizado a tais atividades fúteis poderia ser utilizado para a tentativa de encontrar respostas. O grande problema não está no ato de praticar esportes, mas sim no fato de negar as respostas por preguiça de procurá-las e buscar ideais inúteis, que necessitam de ainda mais tempo, sem acréscimo intelectual, apenas físico, sendo que o físico com o tempo se degradará e o cérebro não, apenas pode ficar menos rápido, mas não menos capaz. O cérebro não tem espasmos, mas a maioria não pode testar, pois não o utiliza.
Estes são os heróis, os fúteis e desprezíveis?

Não está sendo rebaixada a capacidade destes atletas, só está sendo posta a prova a relevância de suas conquistas e da mentira na qual estão impregnados.
Este não é um discurso pró-filosofia, é apenas a imagem da humanidade exposta em palavras, um analogia da relevância das atitudes.

Ah, humanidade!

1-Hammer to Fall (Queen);


J.C.

1 comentários:

Kamilla disse...

Valeu pela visita emmeu blog!
Concordo com vc pura utopia, o problema que mtos levam essas competições a sério!

"A opinião dos demais em relação a mim não é pior que a minha opinião em relação aos demais."

.Contato:

.pilardojefferson@gmail.com
 
Templates para novo blogger